2 de ago. de 2006

A arte perde sua aura

O artigo "As artes como abre-alas" de Rodrigo Naves, crítico de arte, que foi publicado no CADERNO 2 do jornal O Estado de S. Paulo no dia 2 de outubro deste ano, faz uma reflexão sobre o valor da obra de arte e como ela tem sido inserida em nossa sociedade.A polêmica em questão é a inserção de Edemar Cid Ferreira, ex-dono do Banco Santos no mundo da arte e o que isso prejudicou o conceito de arte em nossa sociedade no período que o banco participou integralmente de divulgações culturais e apoiou mostras de arte em nosso país.Comecemos primeiro, lembrando que muito antes disso, praticamente todo o tipo de arte perdeu sua aura artística e deixou de ser artesanal com o surgimento da Indústria Cultural. Isso porque, a partir do momento em que não existe o processo criativo e que a arte começa a ser produzida em série, ela perde todo o conceito cultural, ou seja, a idéia de que precisamos ter um repertório para conceber e entender arte.Chamamos de arte no Brasil produtos da indústria cultural, ou melhor, chamam arte aqueles que não possuem o repertório para compreender seu conceito. A massa considera arte até mesmo a réplica, que na verdade não possui nada de artístico, como a palavra mesmo sugere.É isso que estamos fazendo com a arte, que deveria ser parte da nossa cultura, manifestações que deveriam nos remeter a lembranças culturais ou reflexos sociais do meio em que vivemos são transformadas em representações banais de tudo o que realmente teve algum valor.Como citado no artigo de Naves, o que Edemar Cid Ferreira fez foi atrapalhar a inserção da arte em nossa sociedade. Através da Brasil Connects, empresa usada pelo Banco Santos até o ano passado para promover as mostras culturais incluindo as últimas Bienais e mostras de grande porte e destaque como a do Picasso na Oca (no parque do Ibirapuera), o ex - banqueiro promoveu inúmeros eventos voltados para a difusão e o acesso da arte.Isso teria sido benéfico se não fosse a forma pela qual Edemar realizou tais eventos. Fez da arte uma alegoria, um comércio, como diz o título, abre-alas para a sua ascensão no meio social que lhe interessava.O que porém foi esquecido, tirado da arte, foi justamente o cunho artístico, o que chamamos anteriormente neste texto de aura. Exposições como a do Picasso na Oca, por exemplo, (que bateu seus recordes de bilheteria), transformaram as instalações e as obras em instrumentos carnavalescos, alegorias, com direito a efeitos especiais e labirintos espelhados.Esse tipo de evento atrai a massa, mas tira tudo o que tem de belo e puro do que é feito à mão, do que é original e tudo isso se dá por conta do capitalismo e da indústria cultural.Edemar Cid Ferreira, como advogado da coisa, cumpriu muito bem o seu papel e fez o que a cultura de massa pede que os formadores de tendências e opiniões façam: transformou as obras de arte; que antes faziam parte de uma cultura erudita e em alguns casos popular; em algo massificado.O ex - banqueiro manipulou e vendeu uma arte que tomou a forma de fantasia, algo irreal visando apenas o lucro, como ele mesmo mencionou certa vez: "A cultura é um abre-alas. A gente vem atrás fazendo negócio". Essa frase resume e explica o que realmente é a idéia da tão poderosa Indústria Cultural.