2 de ago. de 2006

São oito horas da noite e cai uma chuva forte. Eu estou sentada em uma cadeira marrom no saguão do Crown Plaza. Acendo um cigarro quando o vejo chegar. Está de cabelos molhados, usa uma camiseta branca e um jeans surrado. Ele também veste um sorriso no rosto.

Apaguei rapidamente o cigarro, morrendo de vergonha daquele homem tão saudável no auge dos seus 61 anos, enquanto eu tentava esconder as minhas olheiras provenientes da noite de trabalho na madrugada anterior.

Ele me cumprimentou com um beijinho no rosto e me olhou com um ar de quem estava esperando ser encaminhado para algum lugar. Sugiro então, que a gente vá para o bar do hotel para iniciarmos a entrevista. Um olhar do Chico é irrecusável... Soa até como uma ordem.

Sentamos em uns bancos altos próximos ao balcão, eu peço um guaraná e ele uma água. Ele percebe que eu estou nervosa, mas não esboça reação nenhuma. Chico é um simpático contido.
Olho para ele e inicio a entrevista. A primeira pergunta que faço é sobre um bilhete que ele escreveu pra a avó, quando viajou certa vez para a Europa. Naquele pedacinho de papel ele já esboçava o desejo, o sonho ou até talvez o dom que tinha para se tornar o ícone da música popular brasileira que ele é hoje.

Tomou um gole de água. Disse-me que ele não tinha essa coisa de saber se era um dom, de estar predestinado. Interrompe a frase e pede o cardápio, dá uma olhadela e naquele momento nem parece que eu estou ali. Fico observando seus olhos azuis percorrerem pelo cardápio como se estivessem dançando. Ele acaba não escolhendo nada. Faz uma pausa e retoma a conversa. Eu lhe abro um sorriso. Chico me diz, enquanto aperta um guardanapo entre os dedos, que a música é o que ele sabe fazer, que no início ele foi movido por ideais políticos, que por ele estar ligado à história e por outros tantos fatores que ele fazia música.

Pergunto a ele por que ele se auto-exilou na Itália em 69, depois de ter se apresentado em Cannes no mesmo ano. Sinto-me uma idiota logo depois de ter perguntado só de ver a cara que ele fez, mas seu sorriso e seus olhos azuis não me deixam constrangida por mais do que um minuto. Ele muda de assunto entre um gole de água e outro e a tentativa em vão, de chamar o garçom. Diz apenas que isso foi logo após ele ter feito umas músicas com o Tom (Jobim) e logo emenda falando da situação onde seu samba Bolsa de Amores é vetado pela censura. Tempos difíceis aqueles, exclama ele, com uma gargalhada. Seu rosto se contrai em uma expressão gostosa, convidativa para que eu sinta vontade de rir com ele.

Lembro o fato de ele ter cancelado sua inscrição para o Festival Internacional da Canção, que ocorreria através da TV Globo naquela época e ele me responde que havia sido um sinal de protesto e que o motivo era o fato eles estarem beneficiando os cantores mais famosos. Acho que ele nunca imaginaria que ele seria uma lenda viva para a nossa música.
Hoje Chico não é um homem de muitos protestos, gosta de caminhar pelo bairro onde mora - o Leblon - ou jogar futebol, comprar o jornal e muitas vezes pode ser visto almoçando em seu restaurante preferido, como se nenhum mito ou ideal tivesse sido criado através de sua pessoa. Esse homem, que esteve por vinte minutos na minha frente, é realmente alguém assim: simples e comum. É isso que o torna mais especial. E é dessa forma que acaba a nossa entrevista, de um jeito simples e sutil, como o próprio Chico. Ele olha no relógio e me dirige um sorriso, diz que precisa ir e me agradece. Eu agradeço também. Imagina, o prazer foi todo meu - eu digo. Ele me dá outro beijinho e logo o vejo sumir, da mesma forma sorrateira que chegou, no meio da chuva, que agora é uma cortina, fechando o espetáculo de estar em sua compania.

(tudo isso é um conto, uma ficção)