2 de ago. de 2006

Opus Dei e o Master em Jornalismo

Eu não sabia o que era o Opus Dei. Descobri que além de significar Obra de Deus e ser uma organização poderosa representando o lado radical da Igreja Católica, essa organização pode representar atualmente, o medo que nós jornalistas sentimos, de conviver novamente com a censura, associada ao fim do compromisso jornalístico com a transmissão de informação e a liberdade de expressão.
Quem entra no site do Opus Dei no Brasil, imagina uma instituição idônea de católicos que querem fazer o bem: "a finalidade do Opus dei, é contribuir para essa missão evangelizadora da Igreja, promovendo, entre os fiéis cristãos de todas as condições, uma vida plenamente coerente com fé nas circunstâncias correntes da existência humana e especialmente por meio da santificação do trabalho", segundo a mensagem que apresenta a missão dessa Prelazia da Igreja em seu site oficial.
Na verdade, pesquisando mais a fundo sobre a organização, vemos que existiam até pouco tempo atrás, muitas informações escodindas e de extrema importância para todos nós cidadãos. Os numerários (membros celibatários que vivem nos centros da obra) tem as correspondências violadas e vivem exílio semelhante aos campos de concentração de guerra. Realizam a autopunição através de um "kit de mortificação corporal", que inclui chicotes para as nádegas e o cilício, uma espécie de trama de metal que perfura a carne na região das coxas. Esse aparato é usado diariamente, por duas horas.
Além dos rituais, o Opus dei choca pelo radicalismo e pelas pregações de Josemaría Escrivá de Balaguer, o criador da organização. Entre seus ensinamentos, está o sobre amor prórpio e auto-estima: "Não te esqueças de que és... o depósito do lixo. [...] Humilha-te; não sabes que és o caixote do lixo?"(Caminho,592),"Não és humilde quando te humilhas,mas quando te humilham e o aceitas por Cristo"(Caminho,594).
Em breve encararemos a eleição do Presidente da República. Isso é o que nos preocupa com relação ao Master em Jornalismo. Explico: a revelação que veio da Revista Época de 16 de janeiro deste ano, mostra que o nosso futuro candidato Geraldo Alckmin, tem formação cristã no Opus Dei e que realiza encontros no Palácio dos Bandeirantes com Carlos Alberto Di Franco, jornalista e um dos mais influentes numerários da organização católica em questão.
Di franco, nada mais é do que representante no Brasil da Escola de Comunicação da Universidade de Navarra e diretor do Master em Jornalismo, programa de capacitação de editores e que já formou 200 cargos de chefia dos principais jornais do país, como mencionou a Época em sua matéria.
No curso do Master em Jornalismo, os palestrantes informam aos editores, que as reportagens do Globo Rural sobre carro de boi, pode ser também uma forma de jornalismo investigativo. Vejam só, que isso nunca havia sido ensinado aos bons jornalistas! O palestrante Marcelo Beraba, também disse em evento recente realizado no Núcleo Editorial da Associação Paulista de Jornais (APJ), que a qualidade da informação passa, inevitavelmente pela apuração da mesma. Com isso também concordamos, mas a questão é que tipo de apuração será cobrada por esses editores, que estão sofrendo a lavagem cerebral proposta sutilmente pelos membros do Master em Jornalismo (de onze professores do Master, seis são do Opus Dei).
A visão do Opus Dei é uma visão totalmente fanática da religião. Imagine você o que isso implicaria na tomada de poder no nosso país de um governante católico fanático declarado, e ainda mais com essa visão radical. Será que teríamos de volta a censura em nossos jornais? Será que Di Franco conseguiria junto com Geraldo Alckmin convencer a imprensa brasileira que o melhor caminho não é o da ética e da verdadeira apuração, mas sim o da verdade perante a Igreja? Como não sentir medo ao ler em uma revista semanal a entrevista com Di Franco, onde ele declara que o Master tem sim identidade cristã e que não se faz necessário que os leitores saibam que um jornalista participa da obra, mesmo quando ele escreve um artigo criticando um livro ( O código de da Vinci) que mostra o lado pútrido do Opus Dei? É inevitável que todas essas revelações nos tragam à tona a questão da manipulação através do poder.
É um fato óbvio o de que se o Governador Geraldo Alckmin for eleito, ele poderá usar de sua manipulação em prol do Opus Dei. Isso aconteceu anteriormente em outros eventos importantes como o Consenso de Washington, um receituário neoliberal para os países emergentes na década de 90, criado pelo economista John Williamson em 1989.
Nesta época, criou-se a impressão de que havia um grupo de medidas a serem tomadas no campo da economia que valeriam para o crescimento de todos os países e estas idéias foram implementadas e adotadas por muito tempo sem serem contestadas. Isso é o que ocorrerá se houver a efetivação do Master no Jornalismo, e assim como no Consenso, só depois do fracasso é que o nosso país questionará se a escolha do nosso Presidente foi correta, não muito diferente do que acontece hoje.
O uso do poder para a manipulação das massas sempre ocorreu e ocorrerá, inclusive ou principalmente pela imprensa, mas o mais preocupante é a forma que este poder é utilizado e do que ele quer persuadir a população. Não acredito que seja tirando do povo o direito à informação pura e verdadeira, que o poder possa ser efetivo. Voltaremos a viver diante do que fez a ditadura militar, que aumentou o nosso “PIB”, isto é, a “Produção Interna de Burrice”.